sexta-feira, dezembro 23, 2011

Novas Escolas

Preâmbulo: Inteligência Prática na prática!

Escola Verde (Bali)




Universidade dos Pés Descalços (Índia)









segunda-feira, dezembro 12, 2011

Pensamento Sensível

uma oficina individual, em 5 sessões, na intersecção entre
Teatro & Psicologia


O pensamento pode ter uma plasticidade maior quando pensado em abrangência, e menor se pensado como algo reduzido. Nesta oficina desafiamos @ participante a sentir o 'rio sensível'* que corre em si e alimenta a sua vivência. Produzamos vidas mais conscientes! Produzamos pensamento sensível!

Metodologias:

- Escrita Criativa;
- Expressão corporal e vocal;
- Expressão plástica;
- Diálogo filosófico.

* expressão da obra Mulheres Que Correm com os Lobos
de Clarissa Pinkola Estés (1992)

Onde? Junta de Freguesia do Sacramento
Custo? 35€ por sessão
Com quem? Joana Mealha dos Santos - Licenciada em Psicologia, ramo cognitivo-comportamental e sistémico (FPCE-UL) e mestranda em Teatro e Comunidade (ESTC)

Para quem? Qualquer pessoa interessada em desenvolver mais conscientemente a sua presença.

CONTACTOS: 913963155 ou cristal_de_fogo@hotmail.com

Para mais informações sobre o tema Pensamento Sensível: neste blog o 2ª artigo na página http://patosecisnesdefogo.blogspot.com/2011/11/teatro-comunidade.html - Pensamento Sensível: um pensamento que torna inteligíveis as sensações do mundo.

sexta-feira, novembro 18, 2011

Teatro & Comunidade

Trabalhos escritos realizados no âmbito do Mestrado em
Teatro e Comunidade
ESCOLA SUPERIOR DE TEATRO E CINEMA

ESTC | Ano Lectivo 11/12 |
Joana Mealha Santos|
Teatro e Comunidade I | Nº 1101043 |
Redigido entre 30/06/11 e 24/07/11

Psique, Política, Teatro, Comunidade e Psique

RESUMO O teatro só passou a ser uma questão artística a partir do realismo. Antes - bem entendido, na Grécia Clássica – foi exercício político: tornar a cidade melhor. Hoje, perante uma crise social, o paradigma de Teatro e Comunidade, alarga-se e podemos estar a retornar à questão básica, prática e política, sobre o modo correcto de viver. Tendo como guia o pensamento de Andrew Samuels em The Political Psyche pretende-se demonstrar que é através do afecto que se criam sentidos comuns. As pessoas enviam mensagens verbais e não-verbais que podem ser recebidas e descodificas também em contexto mais social. É um significado não estrutural mas afectivo de arquétipo que nos coloca num mundo vivido no qual todos temos a capacidade para experimentar afectos de uma espécie muito poderosa e profunda. O afecto encarnado está assim no centro da vida humana e, de lá, liga-nos à comunidade, através da política que os moldou, aos afectos, em primeiro lugar. Tudo tem capacidade ou potencial para estimular um nível arquetípico de excitamento emocional em nós. Os arquétipos estão no olhar do observador quando este entra em contacto com a vida, não são algo interior ou exterior mas mais plural e mais criteriosamente holístico, abordagens difíceis de manter mentalmente mas mais condicentes com a realidade onde não somos só moldados mas moldamos e construímos os relacionamentos e a cultura. Construímos a comunidade.


A Psique como Pano de Fundo

No prefácio da sua obra The Political Psyque, Samuels confessa-nos que foi por uma questão de consciência que escolheu o tema. O mundo onde vivemos possui elementos perturbadores: a não igualdade, o preconceito, a violência e a falta de vitalidade imaginativa.

O Teatro no seu berço, a Grécia Antiga, era exercício político: uma forma de tornar a
cidade melhor. Hoje o paradigma de Teatro e Comunidade abre espaço a uma potencialidade complexa, sem o admitir: tornar a comunidade melhor – uma actualização da anterior.

Samuels vem em nosso auxílio ao afirmar que existem processos de mudança política
não-violenta que se podem dar através da Psicologia Profunda (cf. p. 3; Samuels, 1993). No mundo moderno, as relações sociais somente adquirem relevo em função da identidade pessoal.

A erosão da esfera pública acarretou não um vazio, mas a invasão do seu espaço pelo que é do âmbito privado. Deixámos em grande parte de nos manifestar nas praças, no teatro, nos cafés.

Hoje tudo está delimitado para que a distância de segurança entre estranhos seja respeitada. Contudo, esta nossa sociedade procura usar o conhecimento acerca de si mesma, tornar-se consciente de si mesma: esforçando-se por se tornar psicológica (Samuels, 1993; cf. p. 8). É então um movimento natural fundamentarmo-nos na Psicologia Profunda, onde o insconsciente é tido em conta, para modelar actividades com a Comunidade, mais precisamente actividades teatrais.


Antecedentes Analíticos

Como resultado do aumento populacional, que acentuou a dicotomia das classes
matrimoniais e, consequentemente, a expansão da sua ordem exógama, os limites esmaeceram progressivamente e nada mais restou além do tabu do incesto. A ordem social primitiva foi dando lugar a outros factores de ordem que hoje culminam no Estado. Do mesmo modo que todo o passado pouco a pouco vai caindo no inconsciente, assim também a ordem social primitiva. Ela constitui um arquétipo que unificava da melhor forma possível a oposição entre a endogamia e a exogamia, posto que, em vez do casamento entre irmão e irmã que era proibido, ela instituía o
"cross-cousin-marriage‟. Este tipo de união realiza-se entre parentes ainda próximos o bastante para satisfazer de algum modo a tendência endógama, mas já suficientemente distantes para incluir outros grupos e promover a expansão coesa e ordenada da tribo. Mas ao passo que a tendência exógama abolia pouco a pouco os seus limites graças a uma dicotomia crescente, a tendência endógama tinha que fortalecer-se necessariamente, a fim de acentuar o parentesco e mantê-lo coeso. Semelhante reacção desenrolou-se principalmente no domínio religioso e depois também no político, dando no primeiro origem às comunidades de culto e confissões religiosas – como confrarias e a fraternidade cristã – no segundo, às nações. Com a interdependência internacional cada vez maior e o enfraquecimento das religiões, essas delimitações já se tornaram imprecisas ou superadas e sê-lo-ão ainda mais no futuro. Isso cria uma massa amorfa, cujos pródromos já são perceptíveis nos fenómenos modernos da psique das massas. A ordem exógama primitiva aproxima-se progressivamente do estado de caos, controlado com a maior dificuldade (Jung, 1971; cf. p. 221).

Na criação teatral comunitária, visto que cada indivíduo é um mundo, o triste paradoxo é que a vontade de ser optimista que um pedagogo teatral pode manifestar num dado grupo é precisamente o que o impede de encontrar a esperança que vem de sairmos da cena. Não ter qualquer opinião preconcebida, aceitar o que é dito tal como é dito permite transformações súbitas além do simplesmente lógico e previsível. Os sentidos comuns revelam-se afectivamente, através de um todo constituído por mensagens verbais e não-verbais habitando num contexto social.

Nas palavras de Jung (1971; pp. 67-68): “Ser normal é a meta ideal para os
fracassados e todos os que ainda se encontram abaixo do nível geral de ajustamento. Mas para as pessoas cuja capacidade é bem superior à do homem médio, pessoas que nunca tiveram dificuldade em alcançar sucessos e cujas realizações sempre foram mais do que satisfatórias, para estas, a idéia ou a obrigação moral de não ser mais do que normal, significa o próprio leito de Procusto, isto é, o tédio mortal, insuportável, um inferno estéril, sem esperança. Consequentemente, existem dois tipos de neuróticos: uns que adoecem porque são apenas normais e outros, que estão doentes porque não conseguem tornar-se normais. (...) É que o homem só se satisfaz e se realiza com aquilo que ainda não tem, da mesma forma que não é possível saciar-nos com aquilo de que já estamos fartos. Ser um ser social e ajustado não tem a menor graça para quem considera isso uma brincadeira. Andar na linha acaba tornando-se monótono para quem sempre foi correcto, ao passo que levar uma vida digna é o anseio inconfesso de quem nunca andou direito. As exigências e necessidades do homem não são iguais para todos. O que para uns é salvação, para outros é prisão. O mesmo acontece com a normalidade e o ajustamento. Há um preceito biológico que diz que um homem é um ser gregário e, portanto, só atinge a saúde plena enquanto ser social. No entanto, é possível que o primeiro caso que encontramos pela frente desminta frontalmente essa assertiva, provando-nos que ele só gozará de saúde plenamente, se levar uma vida anormal e anti-social. É de
desesperar que na psicologia verdadeira não existam normas ou preceitos universais. O que existe são apenas casos individuais e suas necessidades e exigências são as mais variadas possíveis – tão divergentes, que no fundo nunca se pode saber de antemão o rumo que vai tomar este ou aquele caso. O melhor que o médico pode fazer é renunciar a qualquer opinião preconcebida. Isso não quer dizer que tenhamos que desprezá-las, mas sim, usá-las como hipóteses para um possível esclarecimento do caso”.

A questão crucial colocada aqui por Jung: até que ponto posso eu encontrar esta pessoa como um ser humano único ou até que ponto devo reagir como um paciente típico, é na dimensão política sintetizada por Aristóteles na afirmação: “Semelhantes não constituem [o] Estado” (Giddens, 1991; pp. 181 – 5; cit. por Samuels, 1993; p. 8).


Do Indivíduo à Comunidade

A abordagem de Jung da psicologia desafiou a linha divisória observador/observado e
colocou em primeiro plano a subjetividade no processo de investigação. A teorização clínica actual sobre a contra-transferência do analista estende amplamente o estudo rigoroso de Jung da subjectividade, conduzindo ao possível uso de tal abordagem em relação às temáticas políticas e sociais (Samuels, 1993; cf. pp. 24-50).

As perspectivas individuais da realidade relacionam-se entre si através da descrição
abstracta do todo e o melhor que cada um pode fazer é adquirir conhecimento de todas as perspectivas possíveis e reconhecer que o conjunto é maior do que podemos perceber: “... cada um carrega a tocha do conhecimento por um certo trecho do percurso, só até entregá-la a outro. Se pudéssemos encarar esse processo por outro prisma que não o pessoal, se pudéssemos, por exemplo, supor que nós não somos os criadores pessoais da nossa verdade, mas os seus representantes, simples porta-vozes das necessidades psíquicas contemporâneas, muito veneno, muita amargura poderia ser evitada, e nosso olhar estaria desimpedido para ver as relações profundas e impessoais da alma da humanidade” (Jung, 1971; p.66).

Assim, é um significado não estrutural mas afectivo de arquétipo que nos coloca num
mundo vivido no qual todos temos a capacidade para experimentar afectos de uma espécie muito poderosa e profunda. O afecto encarnado está assim no centro da vida humana e, de lá, liga-nos à comunidade, através da política que os moldou, aos afectos, em primeiro lugar. Tudo tem capacidade ou potencial para estimular um nível arquetípico de excitamento emocional em nós. Os arquétipos estão no olhar do observador quando este entra em contacto com a vida, não são algo interior ou exterior mas mais plural e mais criteriosamente holístico, desafiando fronteiras convencionalmente aceites e não um holismo como mera reacção à perspectiva atomista; abordagens difíceis de manter mentalmente mas mais condicentes com a realidade onde não somos só moldados mas moldamos e construímos os relacionamentos e a cultura (Samuels, 1993; cf. pp. 24-50).

Para lidar e estar na comunidade é necessário tacto. Como nos avisa Samuels (1993; cf. p. 36) o problema começa a resistir a uma solução que não vem se si mesma. Construímos a comunidade conhecendo-a, dando-nos a conhecer, falando a sua linguagem mas também transformando gradualmente os seus ângulos iniciais de visão do mundo. Cooperamos com o que existe e a partir desse material mudamos todos. Assim, usamos a ténica e a lógica para permitir o espaço de vivência afectiva nascente e regenaradora e não tanto catártica ou de reabilitação.

Em relação à mera catarse podemos extrair das palavras de Jung (1971; p.66) o que é importante para o contexto de Teatro e Comunidade: “Geralmente não nos damos conta de que o médico que pratica o método catártico não é apenas uma idéia abstracta, automaticamente incapaz de produzir o que quer que seja além da catarse. Ele também é uma pessoas humana, que, embora pense limitadamente dentro da sua esfera, na acção expressa-se como homem total. Sem chamá-lo pelo nome e sem ter consciência clara a respeito, ele também faz, sem querer, todo um trabalho de elucidação e educação da mesma forma que os outros também contribuem para a catarse, sem por isso elevá-lo a um princípio”.

A integração emocional pode então suceder sem que tenha esse sido o nosso objectivo
inicial. O tacto para usar somente o necessário do que é metodológico permite o processo saudável. O que é demais pode ser prejudicial já que este organismo que é a comunidade contém um enorme potencial eléctrico e sem o cuidado pode manifestar-se um curto-circuito.

Esse curto-circuito é considerado por Jung (1971; cf. pp 172-173) oriundo da
considerável força dos conteúdos inconscientes e sempre sinal de fraqueza correlativa do consciente e das suas funções. É como se o consciente ameaçasse desfalecer. Semelhante perigo representa para o homem primitivo a fatalidade mágica das mais temidas. É perfeitamente compreensível que essa angústia secreta exista no homem de hoje. Nos casos graves é o medo secreto da doença mental e nos menos graves, o medo do inconsciente, que no homem comum se trai pelas sua resistência aos pontos de vista psicológicos. Para se ter alguma possibilidade de saída vitoriosa dessa guerra latente é necessário entabular conversações com o inimigo, a
fim de saber quais as suas condições.

Nestes casos fazer menos pode ser permitir muito mais pois, para que o indivíduo não
se perca na massa necessita de atravessar conscientemente o que pode parecer e é para o consciente: o caos. No fundo, em vez de trazer mais lenha para um fogo já ardente, desbloqueamos os canais criativos já cheios de elementos e esperando há muito tempo para fluirem e criarem circuitos vivos.


Uma Nova Definição de Política

Para Samuels (1993; cf. p. 337) tornou-se evidente que a política não pode ser descrita meramente como um fenómeno que advém da intersecção entre a realidade psíquica e social, mas também deve ser descrito como um fenómeno transpessoal e aponta, como muitas actividades transpessoais, na direcção espiritual. A Política, o Teatro-Comunidade, a Psicologia Profunda e a Religião partilham a mesma fantasia: fornecer terapia ao mundo, prevenção do que sabemos que na nossa História não parece ter ido no sentido que julgamos melhor.

Vemos nascer uma dimensão política do nível do sentir, mais pessoal: uma capacidade
para escolher livremente agir e como agir e que acção tomar numa dada situção, em contraste com a dimensão da manutensão do poder e do ganho de control sobre os outros.

Nunca se penetra em terras novas, sem correr certos riscos: pois nesse empreendimento, o pioneiro depende do equipamento que de facto traz consigo. A psicoterapia surgiu de métodos nascidos da prática e da improvisação (Jung, 1971; cf. p. 73) e foi evoluindo até se tornar além de uma prática, uma linguagem tão difundida que já faz parte do léxico comum e nos define como sociedade que se questiona a si mesma. Para o fazedor de Teatro e Comunidade trata-se não só da capacidade de escuta e ensino, de comunicação verbal e não-verbal, da sua cultura geral, da sua visão de mundo, e de tudo o que consciente ou não traz para o grupo.


Por uma Psique Renovada

Samules (1993; cf. p.9) considera que é deveras importante não deixar o estudo da
psique somente na mão dos clínicos para que os reducionismos psicológicos não sejam criados e recriados. Ele não pretende reduzir um campo a outro mas sim descobrir como podem cada um beneficiar do outro.

Quando entendemos que a força da psique é inseparável das pessoas, que em qualquer
actividade humana social ou não ela actua de forma oculta; mas quando entendemos igualmente que o Teatro, não só aquele que claramente se auto-denomina político, tem uma dimensão política nova oriunda de uma nova definição; e quando pousamos o nosso olhar na terra fértil do Teatro e Comunidade, vemos claramente que um novo paradigma começa a surgir: um modelo de sociedade onde a Psique é olhada de frente e tida em conta para solucionar um mundo que se fragmentou. O inconsciente torna-se nosso aliado.

O consciente humano poderá de forma mais confiante aceitar pontos de vista
psicológicos, que têm raízes em diversos campos do conhecimento mas que têm em conta a psique, sem se sentir perdido neles pois manterá uma conversação inteligente com os mesmos e não sendo aprisionado nem assustado, pode alargar a sua realidade.


Referências Bibliográficas

Jung, C. (1971). A Prática da Psicoterapia: Contribuições ao Problema da Psicoterapia e à
Psicologia da Transferência (trad. Maria Luiza Appy). Petrópolis: Vozes.

Samuels, A. (1993). The Political Psyque. NY: Routledge.




ESTC | Ano Lectivo 11/12 |
Joana Mealha dos Santos| Nº 1101043 |
Teatro e Comunidade II | 01/11/11

Pensamento Sensível: um pensamento que torna inteligíveis as sensações do mundo

Tomando como base o desenvolvimento humano Augusto Boal mostra-nos o ataque que
está a ser desenhado, uma verdadeira Invasão dos Cérebros, para atingir as populações através do primeiro tipo de pensamento existente, e que ele denomina de Pensamento Sensível. Este tipo de pensamento é a base de onde brota o Pensamento Simbólico, sendo a Palavra a interface entre os dois. Esta denominação deve a Alexander Baumgarten que ao dissertar sobre Estética chega ao conceito de Conhecimento Sensível intermediário entre a sensação pura e o intelecto: resultado de uma síntese particular entre a Coisa e o Pensamento Humano (cf. p. 25).

Nas palavras de Boal: “existe uma forma de pensar não-verbal (...) articulada e
resolutiva, que orienta o contínuo acto de conhecer e comanda a estruturação dinâmica do Conhecimento Sensível. (...) Para serem compreendidos, mesmo quando são expressos em palavras, os pensamentos dependem da forma como essas palavras são pronunciadas ou da sintaxe em que as frases são escritas – isto é, dependem do Pensamento Sensível” (p. 27).

Mais à frente no seu discurso Boal esclarece-nos um pouco mais integrando esta noção
com conceitos mais psicológicos: “O fluxo contínuo de nossas acções, que levam em conta e a cabo as informações do Conhecimento, são obra de um verdadeiro Pensamento Sensível, que orienta a dinâmica do Sujeito, traduzida em palavras ou não. A parte não consciente desse pensamento cumpre a mesma função e tem semelhantes virtudes. É o que Freud chamava, em seus primeiros escritos, de pré-consciente e Stanislawski, em seu método de interpretação do actor, de subtexto. Existem muitos níveis de pré-conscientes e subtextos simultâneos, entrelaçados; alguns, um dia, chegam à nossa consciência... outros jamais. Alguns traduzem-[se] em fala; outros, em silêncios” (p. 29).

A percepção da pura sensação só se realiza como tal no início da vida humana, pois a
partir daí, para que o ser sobreviva, este começa a reagir e a organizar os estímulos, principalmente, como prazerosos e dolorosos, úteis e não úteis. Não é feito um mero registo das novas informações com as já recebidas e hierarquizadas, com as carências e desejos do sujeito; progressivamente, as sensações, emoções e memórias a elas referentes organizam-se em sua interacção e conversão em actos, são pensamentos sem palavras (cf. pp. 26 e 60). Sendo que a intervenção coerciva ao pensamento humano está a ser feita a partir das nossas bases, tal resulta numa infantilização das pessoas.

Boal recorda-nos: “os sentidos têm sentido! Não são meras sensações que se apagam
com o tempo: têm sentido e direcções” (p. 27). O caos experimentado não se deve à realidade rica e complexa mas sim à manipulação da mesma tendo como objectivo a incapacitação da calma e ponderada tradução em palavras dessa mesma realidade; o que na espécie humana pede interlocutores adequados já que nos desenvolvemos socialmente. Sem tempo e espaço criado para a reflexão, a tentativa de dar nomes e criar raciocínios sobre a realidade no meio da poluição dos sentidos causa confusão. A realidade sendo múltipla traz a possibilidade de palavras e significados diferentes que necessitam de trabalho para serem elaborados e integrados sob pena de gerarem mais caos do que ordem.

No entanto, “o objecto do fenómeno estético pode, ou não, necessitar ser explicado para melhor ser fruído” (p. 26). Um exemplo claro da necessidade de explicação é o que diz respeito à violência, pois todo o estímulo sensorial violento obscurece qualquer forma de pensamento. Assim, sabemos que a violência na Grécia antiga não era gratuita apesar de se viver então num sistema coercivo que tinha por meta política acomodar as suas plateias ao conformismo social. A tragédia estimulava o pensamento e podia, como em Eurípedes, questionar a sociedade e seus valores: “Os protagonistas explicavam as razões de seus actos e admitiam seus erros – emoção
vinculada à razão. Nenhum sacrifício em vão. Na tragédia grega, a violência física realizava-[se] fora da cena (...) suas razões, essas sim, bailavam em cena diante das plateias, respeitadas como pessoas inteligentes, não como fanáticos espectadores de uma sangrenta luta de boxe tailandês” (pp. 149-150).

Já em Shakespeare é notória a violência que “chega a braços cortados e olhos furados,
mas nunca [é] desacompanhada de razões e pensamentos que permitam o contraditório. Não é a violência em si que causa irreparáveis danos neurológicos à hipnotizada plateia: é a carência de pensamentos e motivações para essas actividades físicas. A violência, em si mesma, não é boa nem má. Será má quando reduzida a socos e pontapés sem subjectividades; didáctica,quando reveladas suas causas e sua ética” (p. 150).

Actualmente, os media usam da estratégia do sensacionalismo que é precisamente não
revelar a subjectividade dos actos individuais que descrevem. Normalmente, a notícia é exactamente o despir das motivações e pensamentos que estariam na origem de determinadas acções que sem essa compreensão se tornam surpreendentes, cruas ou mesmo gratuitas. Habituamo-nos, assim, a viver num mundo que nos parece não ter lógica em acontecimentos demasiado importantes para serem ignorados, mas que acabam por ser relatados só pela sua realidade objectiva e factual, quase que observados com uma lupa míope que aumenta a nossa sensação de insegurança em vez de nos permitir conhecer verdadeiramente a existência.

É por isso natural que encontremos mais facilmente essa sensação de unidade interna
ao ler um romance onde as motivações e pensamentos dos personagens foram construídas com cuidado, tempo, dedicação. Cabe à arte voltar a mostrar o caminho à política, à justiça até ao jornalismo. Cabe à arte voltar a mostrar o que é verdadeira comunicação. Pelas transgressões que faz aos sistemas implementados cabe a ela permitir abrir caminhos esquecidos, propositadamente, e que nos devolverão a liberdade de pensar, que se baseia na fluidez e dinâmica do Pensamento Sensível muito antes da delimitação ou expansão dada pelas palavras do Pensamento Simbólico.

Não se defende aqui que o pensar é sobretudo sentir e que a sensibilidade é mais importante, mas algo mais fundamental: que o acto de pensar com palavras tem início nas sensações e que, sem elas, não existiria, embora delas se desprenda e se
autonomiza até à sua mais total abstracção (cf. p. 27).

Um pensamento só pode ser livre se maduro para tal não deve ser amputado pela
poluição sensorial. Pensar é organizar o conhecimento e transformá-lo em acção, que pode ser fala ou acto, sendo que a fala é um acto. Pensamento é acção que transforma o pensador, o interlocutor e a relação entre os dois; dois que podem ser a mesma pessoa (cf. p. 29).

Assim, um pensamento livre só pode ser produzido por um ser humano que não só se
molda ao exterior e à comunidade onde se insere mas molda e constrói os relacionamentos e a cultura porque é inconformista e actua a partir do desejo de transformar o mundo. Só o pensamento livre pode evoluir de um Pensamento Sensível ágil para um Pensamento Simbólico bem formado onde os afectos, bem reconhecidos mesmo que poderosos e profundos, não perturbam o raciocínio, mas alimentam-no permitindo a boa e verdadeira comunicação com os outros que se dá numa totalidade verbal e não-verbal. Quando tomamos contacto com a vida, se o nosso Pensamento Sensível for tido em conta, sensações de alienação deixarão de ter lugar e
sentidos comuns terão cada vez mais espaço para vingar, porque “somos capazes de falar um único pensamento contínuo enquanto outros, simultâneos, não chegam à nossa consciência verbal – escondidos, fluem no nosso monólogo interior. Se tenho diante de mim sete pessoas e falo com as sete, digo palavras escolhidas: este pensamento verbal flui consciente – com lapsos, é verdade, e falhas de memória! – enquanto outros seis, submersos e sem censura, dirigem-se a cada um dos (...) interlocutores, que a eles são sensíveis, quase sempre, de forma inconsciente – deixam, porém, suas marcas” (p. 29).

Temos a capacidade de ser livres, emancipados, auto-conscientes de forma solitária. “O cérebro físico está dividido em partes, mas é um só, só um, orgânico e organizado: Casa Sem Portas por onde se pode transitar, nada murado. Mesmo quando se cala o Pensamento Simbólico, o Pensamento Sensível está sempre activo, pensando até o impensável, como o infinito e a morte” (p. 28). Os sistemas com suas regras rígidas, como o neo-liberalismo, esses sim não podem viver sem a energia gerada pelo nosso caos geral em grande medida emocional, que nos deixa somente com nosso instinto predatório animal. “Nos animais, o conhecimento também leva à acção, mas de forma conclusiva, não mediada pela consciência. Nos humanos o pensamento pondera e dá aos seus possíveis actos valores morais ou éticos. Os actos humanos são éticos, segundo a moral vigente a cada momento, em cada lugar e circunstâncias” (p. 30). A
criança apenas sente e deseja e com o tempo, aprende tudo aquilo que a sua cultura lhe ensina, permite ou obriga – ou torna-se marginal. Depois disso pode tomar partido, eleger, decidir a partir de uma base de risco e não apenas escolher entre uma disponibilidade de opções que pode estar manipulada à partida. O processo já foi descrito atrás. Existe outra forma de lidar, de reagir e recriar o mundo. A chave: a preservação do contacto com o omnipresente Pensamento Sensível.

Referência Bibliográfica

Boal, Augusto (2008). A Estética do Oprimido (pp. 23-158). Rio de Janeiro: Funarte.

segunda-feira, março 28, 2011

sábado, março 26, 2011

TEATRO TEATRO TEATRO

27 de Março: Dia Mundial do Teatro
Mensagem de 2011 por Jessica A. Kaahwa, Uganda


O TEATRO AO SERVIÇO DA HUMANIDADE

A presente situação do mundo reflecte verdadeiramente o imenso potencial do teatro na mobilização das comunidades e na ajuda à tomada de decisões.

Já alguma vez imaginaram que o teatro pode funcionar como uma ferramenta poderosa para a paz e reconciliação dos povos?

Enquanto as nações gastam somas colossais com missões para a manutenção da paz nas zonas de conflito do mundo, pouca atenção é dispensada ao Teatro como alternativa viável à gestão de conflitos.

Como poderão os habitantes do mundo estabelecer a paz universal, quando os meios utilizados são oriundos de poderes cada vez mais repressivos?

O Teatro impregna subtilmente o espírito humano, cheio de medo e suspeição, mudando a imagem de si mesmo, permitindo alternativas ao indivíduo e à comunidade. O Teatro pode dar sentido às realidades quotidianas, antecipando um futuro incerto.

O Teatro inclui-se nas políticas sociais de forma simples e directa. Assim sendo, o Teatro pode mostrar ser uma experiência que permite ultrapassar ideias pré-concebidas.

Por outro lado, o teatro é um meio de verificação de propostas colectivas que vale a pena defender.

De forma a antecipar a paz futura, devemos começar por utilizar meios pacíficos que permitem a compreensão, o respeito e o reconhecimento do valor das contribuições de cada ser humano na procura da paz. O Teatro é uma linguagem universal que nos permite transmitir mensagens de paz e reconciliação.

Permitindo a cada participante envolver-se activamente, o Teatro traz uma nova visão que incita à desconstrução das percepções individualistas, dando, a cada um, a possibilidade de colocar de lado o passado e de fazer novas escolhas, baseadas num saber renovado e realista.

Para que o Teatro se desenvolva permitindo outras formas artísticas, devemos dar um passo em frente, integrando-o na vida quotidiana, não esquecendo as questões críticas de conflito e de paz.

Tendo em conta as temáticas da transformação social e da remodelação nas comunidades, o Teatro já intervém nas zonas devastadas pelas guerras onde as populações sofrem de pobreza crónica ou de doenças. Existe um número crescente de histórias de sucesso, nas quais o teatro mobilizou a opinião pública, ajudou à tomada de consciência para o apoio às vítimas de guerra. As plataformas culturais como o “Instituto Internacional do Teatro” visam a consolidação da paz e da amizade entre os povos. Mas, tudo isto pode parecer desolador numa época onde, apesar da consciência que temos do poder do teatro, permitimos que armas de fogo e bombas sejam as guardiãs da paz no mundo. Poderão as ferramentas de isolamento e alienação dos povos servir de instrumentos de paz e reconciliação?

No dia da celebração do Dia Mundial do Teatro, aconselho-vos vivamente a reflectir nesta perspectiva e, a partir de hoje, a considerarem o Teatro como um instrumento de diálogo, de transformação e reforma social.

Ainda que as Nações Unidas gastem somas colossais com missões de paz no mundo, o Teatro aparece como uma alternativa espontânea, humana, menos dispendiosa e bem mais poderosa.

Se esta não é seguramente a única resposta para o estabelecimento de uma paz global e duradoura, o Teatro deverá, pelo menos, ser considerado uma ferramenta eficaz de manutenção da paz.

VIVA O TEATRO!




Tradução Margarida Saraiva
Escola Superior de Teatro e Cinema, 2011

http://www.estc.ipl.pt/teatro/arquivo/noticias/2010_11/dia_mundial_teatro.html

segunda-feira, março 14, 2011

Simplificar a Vida: alguns instrumentos

PERMACULTURA

permacultura.blog.pt



Princípios Éticos:

1. Cuidados com o planeta

2. Cuidados com as pessoas

3. Compartilhar excedentes (incluindo conhecimentos)

4. Limites ao consumo

Quanto mais se aproxima da natureza, menos se trabalha.

Quando criamos sistemas auto-sustentados, não precisamos trabalhar para alimentar e proteger os elementos do sistema. Uma floresta produtiva, uma vez estabelecida, exige muito pouco cuidado para se manter, Comparados com as monoculturas, sistemas altamente artificiais que nunca ocorrerão na natureza, sistemas permaculturais que se aproximam da natureza não precisam de adubo, irrigação nem defensivos. Produzem séculos a fio e melhoram cada vez mais o solo, recuperando também o regime das águas da região.

Podemos incorporar animais nestes sistemas se criarmos condições de vida parecidas com aquelas do habitat natural do animal. Tomando o exemplo da galinha, percebemos que é a natureza da galinha de pastar e de ciscar, de comer uma grande variedade de verduras, grãos (pode ser sementes de capins) e insectos. Elas vivem em bandos e sempre dormem no mesmo lugar, no alto. São relativamente resistentes ao frio, mas temem o calor, exigindo sombra. Sofrem predações de gaviões e raposas, precisando de uma boa protecção.

Analisando estas necessidades do animal, podemos muito bem criar uma floresta forrageira para galinhas, incorporando árvores frutíferas (amora, goiaba, acerola, etc.), com verduras rasteiras e grãos (milhetos, capins, etc.), criando um pasto equilibrado onde a galinha se alimenta e se protege. O único trabalho que sobra para o homem nestas condições é de colectar os ovos e vigiar o estado do pasto e dos animais. Uma vez estabelecido, este sistema dura muitos anos com o mínimo de investimento, dando lucro maior do que as granjas industrializadas que exigem altos investimentos em insumos e medicamentos. E, obviamente, a qualidade dos produtos será muito maior.

Substituir altos investimentos e trabalho por planeamento e criatividade.

ou

“Se o sistema está lhe dando muito trabalho, você ainda não pensou o suficiente”

Scott Pittman

O homem está longe de aproveitar plenamente os seus dons criativos. No planeamento de uma propriedade, reflexão e observação podem mostrar soluções engenhosas para os problemas, evitando gastos e trabalho. Podemos aproveitar ao máximo a força da gravidade, por exemplo, para a distribuição da água, colocando áreas de captação no alto da propriedade em vez de colocá-las, como muitos fazem nas baixas, e depois depender de bombas, Ou podemos observar que os animais de modo geral depositam mais esterco de noite do que de dia. O gado pode pastar nas áreas ricas das baixadas durante o dia e dormir em estábulos no alto da propriedade, retransportando assim os nutriente para o alto da propriedade, de onde, com a ajuda da força da gravidade, a distribuição se torna mais fácil.

Precisamos ter a coragem de criar soluções totalmente diferentes dos vizinhos. E precisamos perceber que nenhum sistema é perfeito: sempre tem espaço para mais um elemento, para mais uma função, muitas vezes simplesmente conectando dois elementos já existentes. O limite do sistema é a nossa criatividade.

O problema é a solução

Problemas apontam situações especiais que podem ter uma função única. Se uma área é árida, por exemplo, pode-se especializar em plantas da família dos cactos, como o Figo da Índia ou a cochonilha, um insecto que produz uma tinta valiosa e que se desenvolve no cactos Opuntia. Se uma encosta é pedregosa, ela pode oferecer condições especiais para certas plantas que não de adaptariam em outra áreas mais férteis da propriedade. Se as lavouras sofrem ataques de caracóis, sinal que esta região se presta para a criação destes. Todo problema aponta para uma oportunidade. É questão de enfoque.

A diversificação garante a estabilidade

A estabilidade de uma propriedade ou de uma comunidade depende da disponibilidade de uma gama de produtos espalhados ao longo do ano. Isto protege contra desastres climáticos, porque no caso de qualquer emergência (seca, tempestade), alguns dos produtos vão escapar, devido a uma resistência maior, ou devido ao fato de crescer em épocas diferentes. Deve-se sempre cogitar culturas de emergência, garantidas de dar alguma produção mesmo sob condições adversas. Os povos antigos fazem policulturas por este motivo. Policulturas que incorporam árvores no sistema são as mais estáveis do todas. Uma floresta produtiva dificilmente se abate com a seca ou com o granizo.

A estabilidade vem quando se fecham os ciclos

Quando uma parte do sistema sustenta outra, evita-se a necessidade de procurar insumos fora da propriedade, fortalecendo assim todo o sistema. Da mesma maneira, uma comunidade inteira ganha estabilidade quando os produtos circulam localmente, evitando assim perdas por desperdício ou sangria para uma metrópole central. Considerando, por exemplo, que um terão dos produtos agrícolas no Brasil se perdem antes de chegar à mesa do consumidor, podemos ver a importância do consumo local, que assegura que o que se produz não se perde no processo de transporte e distribuição.

Da mesma maneira, se numa comunidade o mesmo dinheiro troca de mãos muitas vezes, isto tem o mesmo efeito de ter uma quantidade muito maior de dinheiro disponível. Se este dinheiro vai embora para o centro urbano, a comunidade local se empobrece.

Um dos maiores perigos para a estabilidade de uma propriedade rural ou de uma comunidade¸ a poluição. A vida não se mantém onde não há água limpa, por exemplo. Visto que a poluição provém de produtos ainda não utilizados, podemos vê-la como uma fonte de renda em potencial quando se trata de esgotos, ou mesmo de sub-produtos industriais. Os agro-tóxicos obviamente nunca oferecem um potencial para reciclagem (e deveriam ser banidos da face do planeta).

Precisamos responsabilizar-nos pelos nossos netos

Tivemos o privilégio de poder ainda desfrutar de florestas, de beber água limpa , de contemplar paisagens belas. Os nossos netos também têm este direito, e cabe a nós a responsabilidade de assegurar que estes direitos sejam respeitados. Isto pode sugerir muitas frentes de acção: conservação de áreas naturais ainda pouco modificadas pelo homem; desenvolvimento de uma forma de agricultura não devastadora; protecção das águas, especialmente do lençol freático. (Um rio pode-se limpar em poucos anos. Um lençol freático, uma vez poluído, dificilmente se limpa de novo). Em termos práticos, uma floresta desmatada leva entre doze a vinte anos para se recompor, e leva entre sessenta e duzentos anos para chegar a um estágio parecido ao original. Se colhermos somente as árvores no final do seus ciclos e plantarmos culturas adaptadas a estas condições de mata, podemos manter a cobertura vegetal e mesmo assim ter uma boa renda. Cada tipo de árvore tem as suas utilidades. Hoje, nos desmatamentos, a grande massa de madeira (com excepção das árvores mais conhecidas como o mogno) é desperdiçada.

Um agricultor pode muito bem plantar uma parte de sua propriedade com madeiras nobres, criando assim um património inabalável. Não importa se estas madeiras começarem a dar uma colheita daqui a vinte ou trinta anos: o agricultor, nesta época, já vai estar velho e as árvores podem garantir sua velhice, uma forma de aposentadoria particular. E como se pode colher as madeiras gradativamente, replantando ao mesmo tempo que colhe, ele cria um património para muitas gerações futuras.

Os problemas são basicamente domésticos e podem ser resolvidos no nível doméstico

Não há soluções em grande escala para problemas locais. Não há soluções tecnológicas para problemas que são basicamente sociais. Cada vez que uma família consegue se auto-sustentar, produzindo os seus próprios alimentos e reciclando os seus dejectos, esta deixa de participar da agricultura devastadora e deixa de poluir. Cada propriedade, mesmo bem pequena, pode captar água e produzir alimentos. As possibilidades são infinitas: podemos usar toda parede e até telhados das construções para produzir alimentos. Podemos captar água numa variedade de maneiras e reciclar toda água que utilizamos, fazendo-a render muito mais. Tomando como exemplo a perigosa falta de água potável: poucas pessoas se dão conta de que a descarga doméstica gasta 40% de toda a água consumida. Isto representa 100 litros de água por pessoa por dia! Pode-se imaginar a gravidade desta situação numa cidade de milhares ou milhões de pessoas. Podemos dar descarga com a água servida das pias ou do chuveiro, evitando assim este desperdício desastroso para toda a humanidade. Em áreas mais suburbanas ou rurais, podemos desenvolver privadas secas, das quais existem muitos modelos eficazes hoje. Lembrando que os esgotos são também grandes factores de poluição de lagos, de rios e do mar, vemos a importância do tratamento doméstico dos efluentes através de filtros ou de sistemas com plantas. Uma aldeia (ou bairro) de 300 pessoas tem a capacidade humana de preencher todas as necessidades das pessoas do lugar. Mesmo numa situação urbana, pode-se aproveitar os espaços baldios para produzir alimentos e pequenos animais. Cada vez que isto ocorre, economiza-se petróleo e espaços naturais que hoje estão sendo desmatados para produzir alimentos em grande escala. Plantações pequenas e intensivas são muito mais produtivas em qualquer lugar do mundo. O pavor de falta de terras agrícolas é um mito: toda terra pode ser agrícola! O que se chama “agrícola” hoje são aquelas onde pode-se entrar com máquinas pesadas, comprovadamente destruidoras da estrutura do solo. De fato, as terras mais “agrícolas”, em termos de produção, são aquelas frente à porta da cozinha! (é claro que o grande problema é o fato da agricultura se industrializar e ser vista como produtora de dinheiro. Isto levanta grandes problemas práticos, já que se destrói para ganhar a curto tempo. Isto vai acabar de fato somente quando houver ou uma pressão pública em massa ou quando tais sistemas não forem mais viáveis economicamente. Há sinais de que os dois processo estão acontecendo. O aumento de custos em petróleo e agro-tóxicos faz com que a agricultura intensiva e orgânica hoje se torne muito mais lucrativa. Se os problemas são basicamente domésticos e podem ser resolvidos a nível doméstico, isto implica que nós podemos resolver os nossos problemas, não precisando de algum engenheiro ou outro especialista, ou o governo, etc. para dar as soluções. O poder da acção volta para as mãos do indivíduo, da família, ou da comunidade local.

Todo sistema deve produzir mais energia do que consome

Quando falamos em “energia”, podemos pensar em calorias. Vários levantamentos tem mostrado que a agricultura industrializada é, em muitos casos, deficitária energeticamente: para cada caloria de alimento produzida, gastam-se duas a oito (ou mais!) calorias na forma de petróleo (transporte, insumos, máquinas agrícolas, etc.). Qualquer sistema deficitário, que seja em termos monetários ou energéticos, é fadado a falir, cedo ou tarde. Os sistemas permaculturais se tornam produtores energéticos de várias maneiras:

a) Produção intensiva em relação ao trabalho. Sistemas permanentes exigem poucas ou nenhuma máquina e pouco ou nenhum insumo, consumindo menos calorias do que produzem;

b) Produção para consumo local. Evitam-se assim gastos em transporte;

c) Utilização das energias do lugar (gravidade, transporte animal, sol, vento, etc.);

d) Reciclagem dos dejectos. Os fertilizantes industrializados são produzidos a partir do petróleo e exigem muitos gastos em transporte. Quando os insumos são produzidos localmente, evitam-se todos estes gastos;

e) Utilizando energias alternativas captadas no lugar: cozinhado com fogões solares e a lenha, biogás, painéis solares, etc.

Visa-se cooperação em vez de competição, integração em vez de fragmentação


O espírito de cooperação é a grande chave para a recuperação da qualidade de vida no planeta. Vista em termos sociais, a cooperação nos leva a ver todo estranho como amigo em potencial, enquanto a competição nos ensina a ver todo estranho com adversário em potencial. Esta mudança de atitude traz mudanças de comportamento fundamentais. Na cooperação, a energia é gasta de uma maneira mais construtiva, somando a energia de uns com os outros, em vez de se anularem mutuamente, como é o caso da competição. Na agricultura, esta mudança de atitude também transforma o comportamento. Se uma praga ataca a lavoura, um agricultor que se baseia em cooperação com a natureza procurará compreender o porque deste ataque. A planta está enfraquecida? O insecto está com fome por falta de um posto natural? Chega-se até a plantar alimentos para o insecto considerado ‘praga’, reconhecendo que este, como todo ser natural, merece viver. Este convívio pacífico com a natureza faz com que o agricultor não precise mais declarar guerra química na sua propriedade, produzindo assim alimentos de qualidade e limpos, sem comprometer a qualidade da água nem do solo. A cooperação nos leva a ver tudo como sendo interligado. Não é: “eu contra você”, mas “eu junto com você”. Não é: eu contra a praga, mas eu trabalhando em conjunto com a natureza, dentro de um contexto. Desaparece o sentido da fragmentação, de ver um mundo como formado de peças separadas, passando a ver o mundo como um todo integrado, onde mudanças em um elemento dentro do sistema (agrícola ou social), modifica a situação de muitos outros elementos que estão interligados com este. Isto é o que transforma o sistema todo.

(texto adaptado do Instituto de Permacultura da Bahia)

A permacultura não é apenas uma técnica ou muito menos um pacote. É muito mais complexo que uma simples agricultura sem agro-tóxicos, mais complexo que uma agricultura ecológica, ou sustentável, ou biodinâmica. É uma forma de viver que pode ou não envolver essas e outras técnicas. Ao mesmo tempo é muito mais simples por ser a conduta natural das coisas. Necessita apenas de uma observação sem máscaras, da natureza, sem pressa e com atenção. Sem preconceitos.

Texto adaptado de : http://www.cca.ufsc.br/permacultura/


BIOENERGÉTICA







em Onda de Vida

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

A Linha da Vida

A vida definida entre pólos rígidos revela-se rígida.
A vida não é assim!





Crie-se a si mesmo com palavras! E principalmente diga boas palavras às suas maiores criações: os seus filhos!

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Coaching//Treino Individual de Desenvolvimento Psicológico

baseado em
PSICOTERAPIA BREVE
ORIENTADA PARA AS SOLUÇÕES

"I've done the best I can to say what I wanted to say, to say what I meant, and to mean what I said."
Steve de Shazer


Seja ajudado a trilhar o seu próprio caminho de autodesenvolvimento numa relação "adulto-adulto" e num espaço criativo que lhe permitirá descobrir o que é melhor para si e a forma de expressar os seus talentos.


Psicoterapia Breve Orientada para as Soluções é uma abordagem terapêutica centrada nos acontecimentos passados, presentes e futuros que representam recursos para fazermos da vida aquilo que mais desejamos de forma realista e inspirada.


Psicoterapia Breve Orientada para as Soluções pode ajudá-lo(a) a criar objectivos úteis para a sua vida permitindo que reconheça o que já está a acontecer na sua vida daquilo que deseja.

De 5 em 5 sessões é construído um novo compromisso terapêutico.


Sobre este tipo de terapia: http://drwilliamcollier.blogspot.com


Joana Mealha dos Santos*


PROGRAMA
1ª sessão: Apresentação: conversa livre de problemas.
2ª sessão: A utilidade da quantificação (subjectiva) das situações ou a Pergunta-Escala.
3ª sessão: Escrita Criativa para aceder aos momentos de excepção: aquilo que queremos repetir.
4ª sessão: Recursos pessoais: pilares da acção.
5ª sessão: Mudança sustentável: manter o que funciona e fazer algo diferente.

TÉCNICAS PEDAGÓGICAS
Exercícios de reflexão oral e escrita, simulação e imaginação; partilha de ideias e construção conjunta de raciocínios.

AVALIAÇÃO
Qualitativa Individual através de questões de reflexão sobre o progresso pessoal no treino.

PREÇÁRIO//DESCONTO DE 50% profissionais das artes/ estudantes/trabalhadores precários/famílias numerosas

40€

Centro Clínico e Pedagógico
DIVERSIDADES
Rua Egas Moniz, 43-A
1900-217 Lisboa
Freguesia Alto do Pina
(Bairro dos Actores)
Saída de Metro: Alameda/Areeiro
ccpdiversidades@gmail.com
www.ccpdiversidades.blogspot.com


GRUPOS DE APOIO ORIENTADOS PARA AS SOLUÇÕES

Quinzenalmente participe num grupo de apoio para pessoas em transformação profissional e, através das ideias e sentimentos criados em conjunto, nutra a sua própria vida.

INTERVENÇÃO DE UMA SÓ SESSÃO

Se pretende um outro olhar sobre circunstâncias de vida sem sentir necessidade de uma psicoterapia.


* Joana Mealha dos Santos é licenciada em Psicologia Clínica Sistémica pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, da Universidade de Lisboa e, actualmente, desenvolve trabalho na área da Psicoterapia Breve Orientada para as Soluções, assim como na área da formação para o Desenvolvimento Pessoal, na zona metropolitana de Lisboa. Interessa-se e pratica Canto, Filosofia Prática e Escrita Criativa. Actualmente frequenta o Mestrado em Teatro e Comunidade na Escola Superior de Teatro e Cinema.

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